O anuário Valor Inovação Brasil 2017 lista 12 indústrias farmacêuticas entre as mais inovadoras do país. O Aché está na 10ª posição do ranking. As demais são Cristália (12ª), E.M.S (27ª), Eurofarma (36ª), Bayer (41ª), Janssen (64ª), Reckitt Benckiser (83ª), Sanofi (97ª), Hypermarcas (109ª), União Química (111ª), Roche (134ª) e Prati-Donaduzzi (147ª).

Para um setor que vive da descoberta de novas moléculas e pesquisa de novos fármacos, processos que normalmente levam anos até chegar ao produto final, não surpreende o fato de que 80% das empresas pesquisadas para o ranking deste anuário destinem 4% ou mais da receita para inovação. E quanto maior a especialização, mais a necessidade de atualizar a linha de medicamentos.
É o caso do laboratório Cristália, que adota como estratégia para suas principais linhas de negócios – hospitalar e farma a atuação em nichos específicos, como anestesia, narcoanalgesia e antirretrovirais.
“Nossa postura é sempre procurar o protagonismo nessas especialidades”, afirma Ogari Pacheco, presidente e fundador do Cristália. Recentemente, o laboratório decidiu ingressar nos segmentos de oftalmologia e oncologia. Está construindo uma planta farmoquímica oncológica em seu Complexo Industrial Farmacêutico, localizado em Itapira (SP). A nova unidade, que será a responsável pela produção dos princípios ativos de medicamentos oncológicos, deve ser inaugurada no final deste ano, e está recebendo investimentos de RS 380 milhões.
Até maio, o Cristália contabilizava 91 patentes mundiais e cerca de 200 medicamentos em mais de 400 apresentações farmacêuticas. Cerca de 40% desse portfólio de medicamentos, comenta Pacheco, pode ser considerado como inovações radicais com ganho terapêutico. “Inovação em produtos para saúde tem de ter ganhos terapêuticos”, destaca. Do faturamento de 2016, que totalizou RS 1,7 bilhão, 33% foram decorrentes de produtos que resultaram de inovação.
A Eurofarma, que subiu duas posições e ingressou no Top 5 do setor, investe anualmente cerca de 7% das vendas líquidas em inovação, montante que, somado aos trabalhos em pesquisa e desenvolvimento, permite colocar no mercado de 20 a 30 produtos voltados aos segmentos farmacêuticos de prescrição médica, medicamentos isentos de prescrição, genéricos, hospitalar, oncologia e veterinária.
Além disso, a empresa está desembolsando R$ 60 milhões para construir, em seu complexo industrial localizado em Itapevi (SP), um novo laboratório de pesquisa e desenvolvimento (P&D), que abrigará os cerca de 300 profissionais que se dedicam a essa área. A inauguração do novo prédio deve ocorrer até 2019.
A análise da pesquisa feita pela Strategy & PwC para o Valor aponta que a indústria farmacêutica estabelecida no Brasil, por ser relativamente nova, viveu um período de renovação tecnológica nas últimas décadas, o que tem impulsionado taxas mais altas de investimento e foco em inovação.
Outro ponto que se destaca é a busca por inovação disruptiva, radical e arquitetônica, aquelas que buscam, respectivamente, novos modelos de negócios, novas tecnologias e alterações revolucionárias. Só perde para o setor de TI na proporção de investimentos nessas finalidades.
O laboratório EMS se encaixa no perfil de foco em inovação disruptiva. Com atuação voltada para o segmento de genéricos, tem procurado a diversificação. “Estamos mudando nosso portfólio, buscando produtos diferenciados, que resultem de inovação”, explica Ricardo Marques, diretor de desenvolvimento estratégico.
Foram definidas quatro frentes de atuação: genéricos de alta complexidade, inovação incremental, inovação radical feita por meio da Brace Pharma, empresa americana adquirida em 2012 – e os medicamentos biológicos, desenvolvidos pela Bionovis, da qual é uma das acionistas.
Em 2016, ano em que comercializou 477 milhões de unidades de medicamentos, a EMS destinou para P&D 6% de seu faturamento de R$ 10,7 bilhões. Graças a inovações incrementais, o laboratório colocou no mercado novos medicamentos, entre os quais dois se destacam: o Patz SL, indutor do sono sublingual, com metade da dosagem e mesmo efeito terapêutico da forma oral. E o Esogastro IBP, que trata a Hpylori, doença caracterizada pela infecção bacteriana responsável pelo desenvolvimento da gastrite crônica e pela maioria das úlceras que atingem o aparelho digestivo.
A EMS contabiliza 2,6 mil apresentações de produtos, mais de 400 registros de medicamentos no exterior e mais de 90 patentes pelo mundo. Além da sede, em Hortolândia (SP), o laboratório possui fábricas em Manaus (AM), Brasília (DF) e Jaguariúna (SP).
A Sanofi, por sua vez, lançou no ano passado uma vacina contra a dengue – resultado de 20 anos de pesquisa pela Sanofi Pasteur, e o Toujeo, insulina glargina, parecida com a insulina humana, de longa duração, controlando o nível de glicemia por mais de 24 horas. Neste ano, a empresa lançou o Praluent, medicamento biológico voltado ao tratamento do colesterol.
“Buscamos desenvolver tratamentos que respondam aos novos desafios demográficos, como o envelhecimento da população, e também geográficos, das necessidades dos países emergentes, em que somos líderes”, destaca Marcela Silvino, diretora de business operations support da Sanofi.
Essas inovações, explica, resultam de investimentos anuais de R$ 14 milhões na unidade de Estudos Clínicos da Sanofi no Brasil, e de RS 25 milhões/ano para o Centro de Desenvolvimento Genéricos e Similares da Medley, sua unidade de negócio de genéricos e similares.
Atualmente estão em curso 60 estudos, focados em vacinas, diabetes, hipercolesterolemia, esclerose múltipla, doenças raras, asma, oncologia, cosméticos e genéricos.
Na Medley, estão sendo conduzidos outros 43 projetos.
O setor farmacêutico no Brasil está entre os que mais utilizam incentivos governamentais.
Das empresas que estão listadas no ranking, 80% delas fazem uso de um ou mais benefícios fiscais.
Outra característica apontada pela análise da pesquisa do anuário Valor Inovação Brasil é que todas as indústrias farmacêuticas participantes do estudo fazem uso extensivo e consistente de parcerias com universidades, centros de pesquisa e outras instituições ou empresas para inovar.
A Eurofarma, por exemplo, tem fechado parcerias com empresas estrangeiras para desenvolver medicamentos de inovação radical, uma das áreas consideradas estratégicas pela companhia, de acordo com Martha Penna, vice-presidente de inovação. Para o desenvolvimento de antibióticos, conta com a parceria da Melinta Therapeutics, sediada nos Estados Unidos.
Para medicamentos para diabetes tipo 2, estão com a coreana Dong-A, e para medicamentos para câncer de ovário, com a americana Moiphotek. “Sempre fizemos muito bem as formulações e cópias existentes na forma de genéricos e similares”, explica Martha. “Agora, buscamos outro patamar, que são os medicamentos incrementais e a inovação radical, com a invenção das moléculas.” Na Janssen, braço farmacêutico da Johnson & Johnson, a inovação também se apoia no conceito de colaboração aberta com universidades e outras instituições de pesquisa. A empresa, segundo Luis Boechat, diretor médico da Janssen Brasil, possui uma sólida estrutura física para P&D, com quatro centros de inovação em Boston, Califórnia, Xangai e Londres, e sete laboratórios de incubação. Localizados nos Estados Unidos e no Canadá, tais laboratórios apoiam startups e empreendedores.
Alguns projetos neles alocados contam com parcerias de instituições do Brasil, como o desenvolvido em Houston (EUA) por um grupo de pesquisadores do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ), para o desenvolvimento da vacina contra o zika vírus. “Interagir com a comunidade científica tem trazido grande sucesso para a Janssen”, diz Luis Boechat.
Em 2016, a Janssen investiu globalmente em P&D 14,7% de seu faturamento, que totalizou, no período, USS 33,5 bilhões. A empresa atua em cinco áreas terapêuticas: oncologia e hematologia, neurociências, doenças infecciosas e vacinas, imunologia e cardiovascular, além de metabolismo.
Com equipe de P&D, no Brasil, especializada em HIV, hepatite C, esquizofrenia, artrite reumatóide, psoríase, câncer de próstata, mielomas e linfomas, comercializa mais de 50 marcas no país. Nos úl ti mos seis anos, lançou 11 medicamentos, entre os quais está o daratumumabe, que atua diretamente sobre as células cancerosas, fortalecendo também o sistema imunológico, aprovado em janeiro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A Roche Farmacêutica, por sua vez, desenvolve pesquisas no Brasil em parceria com cerca de 240 centros de pesquisa independentes, como hospitais públicos e universidades. Essas equipes estão atualmente envolvidas em 70 estudos clínicos direcionados a doenças graves nas áreas de oncologia, neurologia e esclerose múltipla, entre outras. Nos últimos três anos, os investimentos feitos pela Roche em pesquisa clínica no país superaram os R$ 360 milhões.
De acordo com Rolf Hoenger, presidente da Roche Farmacêutica no Brasil, a empresa promove diversas outras ações em formato de parcerias. “Nossa filosofia é a de promover mentes criativas para que tenham a liberdade de experimentar e propor soluções”, explica. Recentemente propôs, por exemplo, um processo de cocriação com representantes da saúde pública dos Estados do Amazonas e Pará, regiões com as maiores incidências de câncer de colo do útero no país, para que os casos fossem detectados e tratados precocemente.
Também é patrocinadora do Movimento 100 Open Startups, plataforma internacional que conecta startups a grandes empresas. Nessa iniciativa, anunciou um desafio voltado à oncologia, para que startups possam apresentar ideias inovadoras sobre o tema.
Fonte: Valor Econômico, Anuário Inovação Brasil
